A Ontologia do Jejum

A Integração entre a Disciplina Teológica e a Homeostase Biopsicossocial

Lucas Lima

1/30/20263 min read

man praying
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O Jejum como Disciplina Multidimensional: Teologia, Biologia e Psicologia

Este artigo fornece a base necessária para justificar o jejum como uma prática indispensável, tanto para a saúde biológica quanto para o progresso humanitário.

A prática do jejum, frequentemente relegada ao campo da mística religiosa, possui fundamentos que transcendem a mera liturgia, ancorando-se em uma complexa rede de mecanismos biológicos e psicológicos. Quando Jesus de Nazaré estabelece a obrigatoriedade do jejum em Mateus 9:15 — afirmando que os discípulos jejuariam após a retirada do Noivo —, Ele não institui apenas um rito de luto, mas uma disciplina escatológica e antropológica necessária para a preservação da integridade do ser humano em um estado de "ausência física" da divindade. Este artigo analisa as justificativas dessa ordem sob a luz da teologia sistemática, da biologia celular contemporânea e da psicologia do desenvolvimento.

1. O Fundamento Teológico: O Jejum como Vigilância Escatológica

No contexto teológico, a declaração de Jesus sobre o Noivo define o jejum como uma marca distintiva da "Era da Igreja". Diferente do jejum veterotestamentário, muitas vezes associado à expiação e ao arrependimento nacional, o jejum cristão é fundamentado na saudade e na esperança.

A ordem "então jejuarão" (Mateus 9:15) deve ser entendida como um mandamento de autopreservação espiritual. Em uma análise exegética, a ausência do Noivo impõe à Noiva (a Igreja) a necessidade de um estado de alerta. O jejum atua como uma ferramenta de "despertamento" dos sentidos espirituais, impedindo que a saciedade material obscureça a percepção da realidade transcendente. Portanto, a santidade não é um estado estático, mas um dinamismo mantido pela mortificação dos impulsos que prendem o indivíduo exclusivamente à dimensão imanente.

2. A Dimensão Biológica: Autofagia e o Prêmio Nobel de Medicina

A fundamentação biológica para a obrigatoriedade do jejum encontra seu ápice científico nas descobertas de Yoshinori Ohsumi, laureado com o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 2016. Suas pesquisas sobre a autofagia — o mecanismo de reciclagem celular — comprovam que o organismo, sob restrição calórica controlada, inicia um processo de "autolimpeza". Durante o jejum, as células identificam e destroem componentes proteicos degradados e organelas danificadas, convertendo-os em energia e novos blocos de construção.

Do ponto de vista científico, o jejum não é uma agressão ao corpo, mas um estímulo hormético. A hormese é o fenômeno pelo qual a exposição a um estresse moderado fortalece o sistema biológico. Assim, a ordem de Jesus alinha-se à necessidade de restauração do "Templo do Espírito", garantindo que a biologia do indivíduo não seja sobrecarregada por detritos metabólicos que geram inflamação e névoa mental (brain fog), condições que dificultam a disciplina espiritual e o domínio próprio.

3. O Framework Psicológico e a Regulação do Desejo

Psicologicamente, o jejum fundamenta-se na teoria da autorregulação e na capacidade de gratificação adiada. A psicologia moderna reconhece que a capacidade de dizer "não" a um impulso biológico básico, como a fome, fortalece o córtex pré-frontal — a área do cérebro responsável pelo controle executivo e pela tomada de decisões morais.

O jejum treina a psique para desvincular a identidade do indivíduo de seus apetites imediatos. Ao obedecer à ordem do jejum, o fiel desenvolve o que a psicologia cognitiva chama de "resiliência volitiva". Este fortalecimento da vontade é essencial para a manutenção da santidade, pois permite que o indivíduo resista a tentações emocionais e impulsivas, governando-se a partir de princípios e não de necessidades viscerais.

Referências Bibliográficas (Padrão APA)

Fontes Teológicas:

McKnight, S. (2009). Fasting: The Ancient Spiritual Discipline. Thomas Nelson.

Piper, J. (1997). A Hunger for God: Desiring God through Fasting and Prayer. Crossway Books.

Stott, J. R. W. (2006). The Message of the Sermon on the Mount. InterVarsity Press.


Fontes Científicas e Acadêmicas:

Baumeister, R. F., & Tierney, J. (2011). Willpower: Rediscovering the Greatest Human Strength. Penguin Press.

Longo, V. D., & Mattson, M. P. (2014). Fasting: Molecular Mechanisms and Clinical Applications. Cell Metabolism, 19(2), 181-192. https://doi.org/10.1016/j.cmet.2013.12.008

Ohsumi, Y. (2016). Mechanisms of Autophagy. Nobel Prize Outreach AB. Recuperado de https://www.nobelprize.org/prizes/medicine/2016/summary/

The Nobel Assembly at Karolinska Institutet. (2016). The Nobel Prize in Physiology or Medicine 2016: Yoshinori Ohsumi for his discoveries of mechanisms for autophagy [Press release].